Estratégia
E se o próximo passo for uma faculdade para criadores?
Curso livre não constrói equity. Você lança, vende, entrega, e em janeiro do ano seguinte a régua volta para zero. Uma instituição credenciada acumula: reputação, corpo docente, base de egressos, um nome que vale mais a cada turma que sai. Faz meses que eu volto nessa provocação e ainda não resolvi. Este texto é eu pensando alto, sem final.
O que exatamente eu quero dizer com equity aqui
Equity, no sentido que me interessa, tem pouco a ver com participação societária. É o ativo que sobra quando você para de vender por trinta dias. É a diferença entre um negócio que vale o fluxo de caixa dos próximos doze meses e um negócio que vale alguma coisa além disso.
A Overlens fatura na casa dos sete dígitos por ano com dez pessoas. É um número do qual eu me orgulho e que, ao mesmo tempo, me deixa desconfortável quando eu faço a pergunta seguinte: se eu desligar o tráfego, quanto tempo esse número sobrevive? A resposta honesta é: não muito. A esteira funciona porque tem entrada constante. Atlas puxa para a imersão, imersão puxa para Overpass e Bootcamp, e o Vanguarda vive de um estoque pequeno de gente que já andou o caminho inteiro. Cada degrau é bom. Nenhum degrau acumula.
Uma universidade acumula por desenho. O diploma que ela emitiu em 2005 continua trabalhando por ela em 2026, porque a pessoa que o recebeu virou gestora e contrata gente de lá. O corpo docente é um ativo que se valoriza. A base de egressos é uma rede que gera matrícula sem custo de aquisição. Isso é equity de verdade, e a educação livre brasileira, com raríssimas exceções, não tem nada parecido.
A régua zera todo ano e ninguém fala disso
O modelo de curso livre tem uma característica cruel que o mercado prefere não encarar: a reputação que ele constrói é do criador, não da escola. Se eu sumir, a Overlens perde a maior parte do que a faz vender. O que eu construí, então, foi um veículo muito bem operado ao redor de uma pessoa.
Dá para viver muito bem assim. Mas há uma assimetria que me incomoda. Eu peço aos nossos alunos que construam ativos: produto rodando e audiência própria, coisas que seguem trabalhando quando eles saem da frente do computador. E o negócio que ensina isso é, ele mesmo, dependente da presença contínua do fundador. Existe um nome feio para essa contradição e eu não vou fingir que não vejo.
Eu ensino gente a construir ativos operando um negócio que ainda é, em boa medida, um serviço com cara de produto.
Vale dizer que a estrutura de time reforça isso. Trabalhamos com todo mundo PJ, sem exclusividade. É rápido, é enxuto e é o certo para o estágio atual. Só que instituição faz o contrário: prende conhecimento em processo formal, em titulação e em vínculo longo. Agilidade e acúmulo puxam para lados diferentes.
O que uma instituição formal destravaria de verdade
Quatro coisas concretas, e nenhuma delas é vaidade.
Permanência. Uma matrícula em curso de graduação dura anos. O tempo médio de relacionamento com o aluno multiplica por cinco ou seis. Isso muda o LTV de forma tão brutal que o CAC atual, que hoje precisa se pagar em meses, passaria a poder se pagar em anos. Todo o cálculo de mídia vira outro jogo.
Financiamento estudantil. Esse é o ponto que mais me interessa e o menos discutido. Existe uma população enorme que não paga R$ 2.000 numa assinatura à vista mas pagaria uma mensalidade financiada. Curso livre não acessa nada disso. Instituição credenciada acessa mecanismos de crédito educacional que curso livre simplesmente não pode tocar. Isso abre um mercado inteiro que hoje está fora do alcance da esteira.
Legitimidade perante a família. Eu subestimei isso por anos. A decisão de estudar com a gente raramente é individual. Tem pai, tem cônjuge, tem alguém perguntando "isso dá diploma?". Quando a resposta é não, uma parte da conversa morre ali. O diploma é a linguagem que aquela família aprendeu a reconhecer como compromisso sério, e é por isso que ele pesa tanto na mesa do jantar.
Legitimidade perante o RH. Nosso aluno-alvo majoritário quer empreender. Mas uma fatia relevante quer, no meio do caminho, um emprego que pague as contas enquanto o projeto amadurece. E o filtro de RH de empresa média ainda é binário quanto a formação superior. Um certificado nosso não passa por esse filtro. Um diploma passa. Gosto disso? Não. É verdade? É.
E o que ela custaria: a parte que quase ninguém calcula
Agora o outro lado, e ele é pesado.
Ciclo de aprovação. Credenciar instituição e autorizar curso no Brasil é um processo de anos, com avaliação in loco, exigência de acervo, de plano de desenvolvimento institucional, de corpo docente com titulação mínima. Custa muito mais do que uma taxa: é um projeto paralelo com equipe dedicada, consumindo caixa e atenção do fundador durante um período em que o negócio principal precisa continuar crescendo. Com dez pessoas, eu não tenho essa banda sem parar outra coisa.
Currículo engessado numa área que muda a cada seis meses. Esse é o argumento que mais me trava. Uma matriz curricular aprovada não se altera por Slack numa terça-feira. Ela tem processo. E a área que a gente ensina (criar com IA, construir produto, ler dados) se reescreve num ritmo em que seis meses já é uma geração. A cada ciclo de reforma curricular, o conteúdo aprovado estaria defasado antes de chegar à primeira turma. Universidade resolve isso com disciplinas genéricas o suficiente para durar. Genérico o suficiente para durar é exatamente o que eu não quero ensinar.
Titulação sobre prática. Regulação valoriza mestre e doutor. Eu monto time olhando capacidade de operar em horizontes de tempo, e uso os estratos cognitivos de Elliott Jaques como mapa para isso. Currículo Lattes não entra na conta. Numa instituição, eu passaria a contratar parcialmente para satisfazer um indicador externo, o que corrompe o critério que hoje é a nossa maior vantagem de montagem de equipe.
Perda de velocidade. Hoje eu decido mudar o Bootcamp numa reunião e a turma seguinte já entra diferente. Quatro semanas, quatro encontros de três horas, produto rodando no final. Essa latência curtíssima entre "percebi um problema" e "o produto mudou" é o que nos mantém relevantes. Instituição troca latência por estabilidade. É um trade-off legítimo. Só não tenho certeza de que é o meu.
O caminho do meio que eu ainda não testei direito
Existe uma hipótese entre os dois extremos: acumular os ativos que a instituição acumula, sem pagar o preço regulatório. Ela é menos gloriosa e talvez mais inteligente.
- Certificação própria com reputação real. Certificado só vale se alguém do outro lado da mesa o reconhece. E o que faz um certificado ser reconhecido é a taxa de reprovação dele. Certificação que todo mundo passa não informa nada. Se a nossa avaliação for por defesa pública de projeto, com banca e critério publicado, o mercado consegue inferir o que ela significa. Isso é construível sem MEC. É lento e é acumulativo, dois adjetivos que hoje não descrevem nada do que a gente vende.
- Comunidade de egressos tratada como ativo. A rede de ex-alunos de uma boa faculdade funciona porque tem densidade, continuidade e um mecanismo de reencontro. A maioria das comunidades de infoproduto morre porque só existe enquanto a turma está em andamento. Transformar egresso em ativo exige tratar o pós como produto de verdade, com orçamento próprio e alguém responsável por ele.
- Currículo público e versionado. Publicar abertamente o que ensinamos, com versão e histórico de mudança, como se fosse repositório de código. O paradoxo é bonito: justamente porque a área muda rápido, um currículo que mostra como mudou vira prova de competência. Uma matriz curricular aprovada esconde a defasagem. Um currículo versionado exibe a atualização como feature.
O ponto três é o que eu acho mais promissor e menos óbvio. Ele converte a rigidez, que é a maior fraqueza do modelo formal, em diferencial demonstrável. E ele conversa com como a gente já opera: as trilhas do Overpass são geradas por projeto, misturando conteúdo humano e de IA, e isso só funciona porque o currículo não é uma lista fixa. Já escrevi sobre o que aprendi montando essas trilhas e sobre por que copiar o modelo de assinatura quebra escolas online. As duas coisas apontam para a mesma direção: a nossa vantagem está na plasticidade, e institucionalizar tende a matá-la.
A pergunta que talvez seja a errada
Enquanto escrevia isso, me ocorreu que "virar faculdade ou não" pode ser a pergunta errada. Faculdade é uma implementação de uma coisa mais abstrata: um mecanismo social de acúmulo de confiança. O diploma é só a interface. Se o que eu quero é o acúmulo, talvez existam implementações mais adequadas a um negócio nexialista, que atravessa áreas em vez de se encaixar numa delas. E é justo essa travessia que nenhuma matriz curricular por departamento sabe abrigar.
Posso estar errado nessa. É plenamente possível que daqui a cinco anos o diploma tenha perdido tanta força como sinal que a discussão inteira seja irrelevante. Ou o contrário: num mundo de conteúdo infinito gerado por máquina, o selo institucional escasso pode passar a valer mais do que nunca. Eu não sei qual dos dois. E quem diz que sabe está vendendo alguma coisa.
As perguntas que eu ainda preciso responder antes de decidir
Não vou fechar com uma resposta porque eu não tenho uma. Fecho com a lista que está aberta na minha cabeça, na ordem em que eu pretendo atacar:
- Qual fração da nossa base compraria hoje se existisse financiamento estudantil? Se for pequena, o argumento mais forte a favor da instituição cai sozinho.
- Um certificado nosso, com banca e critério público, passa em quantos processos seletivos reais? Dá para medir isso em doze meses, com uma coorte pequena, antes de gastar um centavo com credenciamento.
- Quantos meses de atenção minha o processo consumiria, e qual o custo de oportunidade disso medido no crescimento que a esteira deixaria de ter?
- Existe caminho híbrido de verdade? Uma instituição credenciada pequena, com um único curso estável, convivendo com a operação livre por fora?
- O que acontece com a nossa taxa de conclusão quando o aluno passa a estudar por anos e não por semanas? Nosso modelo depende de projeto entregue. Prazo longo é inimigo declarado de projeto entregue.
- E a mais desconfortável: eu quero isso porque é a melhor decisão de negócio, ou porque "reitor" soa melhor do que "dono de curso"? Ainda não consegui separar as duas coisas com honestidade suficiente.
Se você opera algo parecido e já andou por esse caminho, ou desistiu dele no meio, eu quero ouvir. Eu falo mais sobre esse tipo de decisão em aberto no canal, e o resto do que eu penso sobre construir negócio de educação está espalhado por como eu desenhei a escada de valor e pelo que conto sobre mim.
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